Sobre o Conceito de Museologia Social

in Cadernos de Sociomuseologia nº 1, 1993 pp, 5-6

por Mário Moutinho

O conceito de Museologia Social, traduz uma parte considerável do esforço de adequação das estruturas museológicas aos condicionalismos da sociedade contemporânea. Este esforço de adequação, reconhecido e incentivado pelas mais importantes instâncias da museologia, foi sintetisado pelo Director Geral da Unesco, Frederic Mayor, na abertura da XV Conferência Geral do ICOM da seguinte forma:

o fenómeno mais geral do desenvolvimento da consciência cultural – quer se trate da emancipação do interesse do grande público pela cultura como resultado do alargamento dos tempos de lazer, quer se trate da crescente tomada de consciência cultural como reaçâo às ameaças inerentes à aceleração das transformações sociais tem no plano das instituições, encontrado um acolhimento largamente favorável nos museus.

Esta evolução é evidentemente, tanto, qualitativa como quantitativa. A instituição distante, aristocrática, olimpiana, abcecada em apropriar-se dos objectos para fins taxonómicos, tem cada vez mais – e alguns disso se inquietam – dado lugar a uma entidade aberta sobre o meio, consciente da sua relação orgânica com o seu próprio contexto social. A revolução museológica do nosso tempo – que se manifesta pela aparição de museus comunitários, museus ‘sans murs’, ecomuseus, museus itinerantes ou museus que exploram as possibilidades aparentemente infinitas da comunicação moderna – tem as suas raízes nesta nova tomada de consciência orgânica e filosófica.

Este processo anunciava-se já na Declaração de Santiago (1972 UNESCO/ICOM) onde se considerava também:

“Que o museu é uma instituição ao serviço da sociedade da qual é parte integrante e que possui em si os elementos que lhe permitirem participar na formação da consciência das comunidades que serve; que o museu pode contribuir para levar essas comunidades a agir, situando a sua actividade no quadro histórico que permite esclarecer os problemas actuais.

Que esta nova concepção não implica que se acabe com os museus actuais nem que se renuncie aos museus especializados mas que pelo contrário esta nova concepção permitirá aos museus de se desenvolver e evoluir de maneira mais racional e mais lógica a fim de se melhor servir a sociedade.

(…)

Que a transformação das actividades do museu exige a mudança progressiva da mentalidade dos conservadores e dos responsáveis dos museus assim como das estruturas das quais eles dependem;”.

Na Declaração de Caracas de 1992,que o ex-presidente do ICOM, Hugues de Varine, considerou como a mais profunda reflexão colectiva sobre museus e museologia dos últimos vinte anos estes princípios são claramente reafirmados e considerados como fundamentais para o desenvolvimento da museologia e estruturam a prospectiva apresentada no Relatório de Síntese da XVI Conferência Geral do ICOM.

A abertura do museu ao meio e a sua relação orgânica com o contexto social que lhe dá vida tem provocado a necessidade de elaborar e esclarecer relações, noções e conceitos que podem dar conta deste processo.

O alargamento da noção de património, é a consequente redefinição de “objecto museológico”, a ideia de participação da comunidade na definição e gestão das práticas museológicas, a museologia como factor de desenvolvimento, as questões de interdisciplinaridade, a utilização das “novas tecnologias” de informação e a museografia como meio autónomo de comunicação, são exemplo das questões decorrentes das práticas museológicas contemporâneas e fazem parte de uma crescente bibliografia especializada.

Em Portugal, apesar deste movimento ser mais recente, deve-se reconhecer que estas questões têm sido amplamente debatidas no presente contexto de descentralização, de reforço do poder autárquico e da democratização da vida cultural e associativa.

Refira-se a título de exemplo e em particular as “Jornadas sobre a função social do Museu” organizadas pelo MINOM (Movimento Internacional para uma Nova Museologia) em Vila Franca de Xira 1988, Portimão 1989, Vilarinho da Furna 1990, Lisboa 1991 e Setúbal 1992 e os “Encontros Nacionais de Museologia e Autarquias” que já tiveram lugar em Lisboa 1990, Beja 1991 e Setúbal 1992.

A importante participação nessas reuniões de museólogos, conservadores, autarcas, responsáveis associativos, investigadores e professores universitários, ligados sempre e de formas diferentes a processos museológicos que cobrem todo o país, testemunham claramente que a comunidade museológica portuguesa se integra e é cada vez mais actora neste processo geral de transformação, renovação e inovação que percorre os museus e a museologia.

É pois neste contexto nacional e internacional, que a formação no domínio da museologia, deve ser entendida como um factor fundamental no desenvolvimento das nossas estruturas museológicas.

Esta formação que em nosso entender deve ter obrigatoriamente por base o quadro geral da museologia, tal como está definido no Art. 3 do Estatuto do ICOM, deve ter também em consideração as novas condições sociais da produção museológica.