A Miséria da Museologia e a Inovação Social

Regressando agora ao tema do nosso título, a Miséria da Museologia, ele remete para uma polémica ente Pierre Joseph Proudhon e Karl Marx, já lá vão quase duzentos anos, sobre a natureza do valor do capital e do trabalho no âmbito da economia política.

Em a miséria da filosofia, um livros escrito em 1846, na sequencia duma série de observações sobre a propriedade, Proudhon procura demonstrar que a teoria do valor, iniciada por David Ricardo e Adam Smith, nada mais é do que um embuste. “E quando a Academia pede que se determine as oscilações do lucro e do salário, ela pede por isso que se determine o valor. Ora, isso é precisamente o que repelem os senhores académicos: eles não querem ouvir falar que se o valor é variável, ele é por isso mesmo determinável, que a variabilidade é indício e condição da determinabilidade. Eles pretendem que o valor, variando sempre, não pode jamais ser determinado. É como se sustentássemos que, sendo dado o número de oscilações por segundo de um pêndulo, a amplitude das oscilações, a latitude e a elevação do local onde se faz a experiência, não pudesse determinar o comprimento do pêndulo porque está em movimento.” (Proudhon, 2002) A economia política não passa dum embuste para justificar a relação de dominação do capital sobre o trabalho com base na propriedade.

A resposta de Marx, em a Filosofia da Miséria (Marx, 1946) escrita em 1848 Marx procurará demonstrar que a teoria do valor é crucial para o entendimento da economia política do capitalismo. A relação de contradição, entre o capital e o trabalho expressava a necessária resolução dialética pela revolução. Mais tarde redigirá, como sabemos, o Capital, onde detalhará as suas análises sobre os processos mercantilização do trabalho, que fundamenta a acumulação do capital.

Pego nestas duas questões para trabalhar a Museologia da Miséria face à Miséria da Museologia. Onde está o valor do trabalho museológico. Do lado dos objetos ou do lado a inovação que produz na sociedade.

Grosso modo, a proposta da sociomuseologia vem propor a função social como um elemento de relevância para o trabalho museológico. Se de um lado, enquanto técnica, temos um conjunto de operações metodológicas a que chamamos de museografia, que envolvem os processos de conservação, restauro, investigação e comunicação (expografia); do outro lado, o local onde isso acontece, o espaço museológico, implica igualmente as questões de gestão, de organização e de marketing. A este trinário matricial, do objeto, no museu, e do publico visitante, a sociomuseologia vem alargar os campos, a novos objetos, ao território e à comunidade. A operação que legitima a ação museológica, a sua função social, desloca-se do olhar sobre o objeto/museu/publico para a sua função no desenvolvimento das comunidades e territórios. Um lugar onde os objetos passam a ter um outro lugar epistémico (Pereira, 2010).

A questão da função social da museologia esta hoja adquirida. A museologia tem que ter uma função na sociedade. No seu desenvolvimento. A comunidade deve participar nos processos museológioco. Uma participação que pode ser nos seus diferentes processos, seja de inventário, seja de processos expositivos, seja na conservação. Digamos que a questão da função social da museologia passa, em grande medida, para a questão sobre a sua capacidade para a produção de inovação social.

Como é que esta museologia social trabalha no campo da Inovação Social. Ora neste domínio temos vindo a trabalhar os processos de aprendizagem na museologia. A museolga tradicinal, como vimos noutros lugares (Leite, 2014) tem vindo a apresentar aquilo a que vulgarmente consideramos como narrativas efetuadas com base no pensamento convergente.

Ora o que sabemos pelos diversos trabalhos sobre a inovação social, as sociedades na busca de inovação, devem favorecer processos de aprendizagem com base no pensamento divergente.

Sabemos que os processos de aprendizagem são múltiplos, e que cada indivíduo desenvolve mais apetências por determinados processos. Enquanto uns desenvolvem mais as competências visuais, outros as verbais e ainda outros as lógicas, enquanto que estes outros se envolvem nas competências físicas, outros ainda desenvolvem a capacidade de entender o outro. Uns aprende mais solitária mente outros em grupo. É desse processo que emerge a inovação. Logo, os processos museológicos devem, também ele permitir a emergência de processos múltiplos.

Todos sabemos que cada uma prende de diferentes formas. Na verdade não há uma única forma de aprender. Em cada situações podem ser usadas diferentes técnicas e estratégias. O que é importante é que cada um desenvolva os diferentes formas de aprendizagem e as use e experimente conforme achar que é mais adequado. Não há uma receita única.

O que parece ser mais interessante é o uso de aprendizagens múltiplas para o desenvolvimento de inteligências múltiplas. Usar várias formas de aprendizagem é um processo que rompe com os estilos tradicionais. Por exemplo, o ensino escolar tradicional, usa e continua a usar, principalmente, as competências linguísticas e lógicas. Embora as competências artísticas e físicas sejam reconhecidas como valor de aprendizagem, fora das suas áreas específicas, raramente são usadas como estratégia ou como técnica.

As escolas ainda continuam a usar a sala de aula, o livro, a repetição como método, e a avaliação através do exame. O resultado disso não é difícil de entender. Os que desenvolvem bem essas competências, e as escolas que os favorecem, são rotuladas como boas e os outros métodos ou experiências são rejeitados.

Estamos aqui perante a teoria do valor, medido numa escala de inteligente a “burro”. Sendo que a primeira categoria fundamenta a sua expansão em proporção geométrica, remetendo a segunda para uma exclusão.

Se as diferentes aprendizagens permitem o desenvolvimento de múltiplas inteligências, podemos concluir que o desenvolvimento de apenas algumas delas, conduz a um desequilibro societal, onde uns encontram condições ambientais para properrarem, enquanto que outros, nas margens desse sistema, encontram muitas dificuldades para se desenvolverem.

É aqui que chegamos à questão do movimento de aprendizagem cinstética. O movimento de aprendizagem Cinestetica  (o Kinesthetic mouvement) defende que a aprendizagem mental dever ser acompanhada por uma aprendizagem externa. Isto é, paralelamente ao modelo verbal e linguístico, devem ser desenvolvidas os modelos experimentais.  Nada que não se faça já na ciência através da experiência. Mas como veremos são ainda situação de aplicação muito limitadas.

Vamos então agora ao mundo dos museus. Facilmente se entende que o modelo dos museus, com a tão defendida função educativa, pouco mais faz do que reproduzir o modelo de comunicação formal, com base na observação, na distância. Há naturalmente várias e excelentes excepções.

Em tempo defendemos mesmo que haveria três tempos na formação do mundo dos museus. O tempo primitivo, das galerias de curiosidade, o tempo dos museus exposições, fundado no século XVIII, com as coleções organizadas de forma temática e os procedimentos museísiticos, e o tempo da ciência, onde a coleção deixa de ser constituída por objetos naturais, para passar a ser construída para propósitos de exposição.

Para dar alguns exemplos, em Portugal, no primeiro modelo, teríamos como exemplo, o museu da sociedade de geografia, no segundo caso, os museus tradicioanais (museu de arte antiga, de entologia, de arqueologia) e no terceiro caso os “ciência viva”. É claro que estas questões não são lineares e haverá muitos casos em que os processos se misturam.

O que nos interessa salientar, para a questão da miséria da museologia, é que mesmo nesta última vaga de museus, museus onde os objetos são construídos, apesar de importantes inovações, no domínio da manipulação, do táctial, dos cheiros, dos sons, ainda hà uma ausência do movimento. Digamos que são museus que apelam às aprendizagens pelo visual (observação), ao verbal, numa atividade solitária.

O objeto é o centro da exposição, ao invés do sujeito ser o centro da exposição. É necessário acrescentar as dinâmicas do movimento à museologia. Dinâmicas que favoreçam a criação de conexões emocionais e cognitivas para obter respostas emocionais. Os processos museológicos podem ser usados para aumentar a integração, a cognição, os afetos e a expressões físicas da comunidadxe. Aumentar a expressividade na comunidade adiciona-se deste modo a função de incrementar a consciência de si e do mundo. A inovação social como função na museologia