A museologia social em Portugal 

Como afirmamos no início, Portugal foi o locus onde se constituiu esse Movimento Internacional para uma Nova Museologia. Tal não terá sido por acaso. Tinha decorrido onze anos sobre a democratização. Um intenso processo social que catalisou inúmeras forças e projetos culturais na busca de iniciativas de base local empenhadas, quer na resolução dos problemas das comunidades locais, quer no desenvolvimento de iniciativas de desenvolvimento local, muitas delas com base em projetos de natureza cultural. Era portanto inevitável que muitas dessas iniciativas acabassem por desembocar em experiências museológicas. Esta nova museologia em Portugal acaba por acolher e decantar muita dessa experiência do movimento social que então se gerou.

Não faltarão exemplos dessa riqueza museológica, embora muitas dessas experiências se tenham perdido na memória dos seus agentes. Há época os processos comunicativos eram bem diferentes dos atuais, e o registo e a reflexão sobre a ação nem sempre faziam parte da riqueza produzida pela ação social. Como temos acesso através do arquivo do MINOM, em boa hora digitalizado os processos acabavam por ter um ciclo de vida bastante curto e um raio de influência limitado. Muitas destas experiências estão agora limitadas ao domínio da oralidade.

Argumentamos aqui que, como premissa de base, que a constituição em Portugal do MINOM, não menosprezando as importantes experiências à época noutras latitudes, resultou numa boa medida da riqueza e diversidade das experiências museológicas portuguesas, herdadas desse intenso período da construção da democracia. Tal fato também não será alheio, a existência em Portugal dum grupo MINOM Portugal1, que embora plenamente integrado no MINOM Internacional, num caso que nos parece único neste universo, procura através da mobilização dos membros desse território, refletir a nova museologia numa base nacional. Realizou, por exemplo nestes quase trinta anos 22 e dois encontros sobre a “Função Social dos Museus” e 17 encontro sobre “museologia e autarquias”, para além de um conjunto de iniciativas e encontros mais delimitados.

Também uma boa parte desse esforço de reflexão e prática sobre a Museologia Social se traduziu na constituição em 1993, na Universidade Lusófona, do primeiro programa de pós-graduação em Museologia Social, em 2001 do Mestrado em Museologia e em 2007 do programa de doutoramento em museologia. Programas académicos que contam com a colaboração dos membros desse MINOM, permitindo que aos diversos investigadores tomarem conhecimento com problemas e práticas desta nova museologia em diferentes latitudes. Para alem disso, conta ainda com a publicação, desde 1993, de 44 números dos Cadernos de Sociomuseologia, local onde são publicados inúmeros textos de reflexão sobre essa museologia social.

Será portanto de esperar, face a um tão elevado resultado da atividade dos membros que seja possível encontrar em Portugal uma importante expressão, desta nova museologia nos diversos espaços e processos museológicos. Todavia não é essa a situação. Apesar duma elevada números de experiências, muitas delas ainda a aguardar uma reflexão mais profunda, contam-se pelos dedos duma mão os casos de práticas dessa nova museologia. Já lá iremos a essas razões e a esses casos.

Entre os membros portugueses desta nova museologia, correm explicações para essa situação. Há quarenta anos, a revolução democrática foi um importante contexto para o desenvolvimento de movimentos socais. Muitos desses processos, de desenvolvimento de ações de divulgação cultural, de animação desportiva, de alfabetização, geralmente praticados por associações e grupos de moradores, acabaram, por diferentes vias, acabar por colocar as questões do património, da educação patrimonial na ordem dão dia. Essa corrente de criação e inovação cultural, que se orientou para as questões patrimoniais (pois houve muitas outras correntes outras que se dirigiram para o teatro, para o cinema, para a musica e a dança, para as cooperativas de produção e consumo, para o artesanato), acabaram por afluir ao movimento de constituição do MINOM, tendo este movimento servido de organização matricial desde então.

Também, para a compreensão da vitalidade desse movimento em Portugal, também não é indiferente a ação do Instituto Franco-Português em Lisboa, liderado entre 1977 e 1987, por Hugues de Varine2. Hughes de Varine, antigo presidente do ICOM (1965-1974), havia participado no movimento de renovação da museologia europeia, tendo formulado o conceito de ecomuseu, um conceito que procurava aproximar a questão da museologia aos problemas sociais do contexto europeu nessa época.

Os conceitos de Ecomuseu, que alarga a ação do espaço museológico ao território envolvente, procurando mobilizar os recursos locais como instrumento do desenvolvimento, e o conceito de museus de comunidade, este mobilizando a comunidade como ator de desenvolvimento, constituirão, com o alargamentos da noção de objeto museológica, essa matriz ternária da nova museologia.

Essa riqueza que chega ao campo patrimonial por via dos movimentos sociais e a do regresso de Portugal á UNESCO3, ambos na sequência da revolução democrática, que propõe um novo tipo de planeamento nas organizações museológicas4, e a presença de Varine com as suas propostas de ecomuseu em diversos espaços5, explicam uma parte dessa vitalidade. É nesse contexto que quer Mário Moutinho e Manuela Carrasco, a partir de Monte Redondo, iniciam o seu trajeto de consolidação da Nova Museologia, Alfredo Tinoco, a partir da Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, com a proposta de participação das comunidades na formação dos seus patrimónios do trabalho (museus mineiros, museus têxteis, museus das industrias conserveiras, museus das pescas).

Ora se esse caldo de cultura de inovação explica a vitalidade do movimento dessa nova museologia em Portugal, o que sucede ao país com a adesão às Comunidades Europeias, com a introdução de novas formas de organização da cultural, com a implementação de políticas publicas na área da cultura, com acesso a fundos comunitários para a construção de espaços culturais, explica, em parte, que toda a riqueza da experiência dos movimentos sociais para um plano secundário. Salvo algumas exceções, a maiorias das intervenções museológica acaba pró se integrar em estruturas hierárquicas, na dependência de terceira instituições que asseguravam o financiamento da atividade. A vitalidade das ações informais vai-se perdendo à medida que os formalismos institucionais aumentam. Com essa integração institucional os atores pedem criatividade, ganham rotinas e perde-se grande parte de espontaneidade

Pode-se portanto considerar, que em paralelo com a consolidação da reflexão teórica, através da sua integração na Universidade6, a maturidade do pensamento sociomuseológico em Portugal, incluindo a sua profunda influência no mundo da Nova museologia, se foi ampliando, simultaneamente com uma diminuição da capacidade de criação de inovação museológica.

Deste modo estamos perante um aparente paradoxo, onde em paralelo com o aumento do número dos profissionais não se verifica um aumento das experiências de inovação dessa nova museologia. A tudo isso, se adicionarmos o envelhecimento natural dos principais protagonistas, explica em parte esta contradição.

Isso aliás não é nada que não tenha já sido refletido no âmbito dos encontros do MINOM7, onde se tem detetado essa perda de vitalidade e de projeção da museologia social em Portugal.

No nosso ponto de vista há evidentemente boas razões para olhar para aquilo que construíam as ideias iniciais, os objetivos e comparar com os seus resultados. Efetivamente, todos nós sabemos que a dimensão da utopia raramente coincide e se conjuga de forma satisfatória com a dimensão do real. Há sem dúvida muitas razões, muitas delas identificadas nessas reflexões. Mas a questão de findo continua por explicar.

A questão de este movimento da nova museologia deve colocar a si mesmo é o de saber de face ao movimento social da sociedade, a Raiva e ao Medo que gera revolta, a museologia está a dar resposta. Interessa olhar para o que está a acontecer, sem olhos preconceituosos, para quem é que na museologia se está a procurar a conectar como os ritmos do mundo. Quem está a procurar criar, a partir do local, conexões com as lutas globais. Quem é que localmente está a usar o património e as heranças para as usar de forma criativa na construção da inovação social. Olhar para quem a partir do local procura alternativas mutualistas às economias do consumo. Quem numa escala local, procura trabalhar os patrimónios a partir do encontro, procurando alternativas a sociedade dos indivíduos. Quem nos espaços e processos museológicos procura criar conexões de ação para mobilizar as comunidades.

Em suma é necessário saber quem é que está afirmar um novo paradigma de transição e a implementar uma museologia dos afetos. Quem é que localmente está a utilizar os instrumentos das tecnologias da comunicação para incrementar as conexões com o mundo global na museologia.