A relevância da museologia social em Portugal 

 

Concluindo este breve balanço sobre alguns casos relevantes da museologia social em Portugal, não podemos deixar de evidenciar que eles ilustram uma das questões que temos vindo a procurar relevar. Argumentamos que a agregação dos membros desta nova museologia em Portugal acolheu muita da experiencia social que havia sido desenvolvida no período da democratização. Essa experiencia, acabou por ser incorporada na reflexão académica, por via duma institucionalização do ensino da museologia social. Essa condição favoreceu de forma substancial a reflexão teórica sobre a museologia, permitindo a concretização de importantes experiencias museológicas.

Como pudemos também argumentar, essa situação ocorre num período de refluxo dos movimentos sociais, onde a criatividade e a inovação foram menos valorizadas em detrimento duma aproximação às estruturas reguladoras e normativas. As políticas públicas culturais tenderam a privilegiar a criação de rede de equipamentos culturais e de património e centraram-se na criação de instrumentos reguladores dos processos de intervenção.

Os museus e os movimentos sociais são constituídos por pessoas que se organizam socialmente nas formas disponíveis. Ora em Portugal, entre 1985 e 2009 viveram-se, por via dos processos de integração europeias, trinta ta anos de elevada transformação social, de grande bem-estar e disponibilidade de recursos que absorveram grande parte da energia dos movimentos sociais ao mesmo tempo que lhes foram normalizando as práticas.

Na falta de movimentos sociais fortes na sociedade, e perante as possibilidades de caminho abertas pelas políticas públicas orientadas pelo Estado e pelo governo europeus, os museólogos sócias foram encontrando formas de ação que se ajustaram às circunstâncias.

É também necessário não esquecer que esta museologia social, ao nível português e europeu continua a ser uma museologia minoritária. Uma museologia empenhada, aceite pelos seus pares, mas ainda longe de convocar grandes atenções.

Pelas razões de contexto e circunstância esta museologia social foi-se construindo a acantonando nos espaços mais tradicionais, não procurando a riqueza dos movimentos sociais mais criativas da sociedade.

Quando os museólogos estão empenhados no trabalho social, no trabalho com as comunidades, abrem-se vários caminhos de possibilidade. Contudo, como sabemos, os museus são para além de espaços de memória, espaços de poder. E como tal, os museólogos e museólogas sociais também se confrontam com as pequenas e grandes tensões que casa espaço comporta.

Constituindo Portugal um espaço periférico da Europa, as diferentes tensões e os diferentes poderes que se vão debatendo na sociedade, e perante os escassos recursos disponíveis, conduzem a que os museus sejam lugares de acesas disputas de memória e de poderes. Desse modo compreende-se melhor que apesar da intensa vitalidade da nova museologia em Portugal e de através da sua intensa atividade formativa, a expressão continuada e a capacidade de construção de inovação das diferentes práticas museológica se encontra fortemente condicionada pela capacidade de intervenção dos seus agentes.

Finalmente um outro fator que também explica uma certa limitação dos casos e das práticas de uma nova museologia comprometida em Portugal, relaciona-se com uma relativa distância dos atores com as vivências das comunidades. A maioria dos atores da nova museologia chega às práticas dessa nova museologia por via académica. Isso é particularmente visível nos encontros sobre a Função Social dos Museus e nos encontros de Museologia e Autarquias, onde o modelo de encontro continua a ser o modelo universitário, da transmissão do saber.

Os movimentos sociais de inovação, como vimos acima, transportam uma prática política emancipatória. A aplicação dos modelos participativos, o desenvolvimento de práticas criativas, a procura dos problemas locais, das sensibilidades e a criação de espaços de afetos são componentes destes novos movimentos que estão ausentes das praticas e dos processos desta nova museologia.

O envolvimento dos modelos participativos dispõe hoje de recursos para o desenvolvimento de práticas criadoras nos encontros. Um certo receio de enfrentar a criatividade acaba por levar a modelos de intervenção muitos fechados, pouco ajustados às questões que se pretendem tratar.

Estes elementos, junto com uma séria de reflexões que tem vindo a ser feitos no Movimento da Nova Museologia em Portugal, explicam talvez em parte que em Portugal de verifique uma riqueza teoria muito elevada e uma experiência pratica ainda limitadas e de fraca durabilidade.