O movimento da museologia social 

Neste ponto vamos procurar interrogar o que há de comum entre estes diferentes movimentos sociais, que perante uma determinada conjuntura económica de crise financeira, em diferentes partes do mundo se mobilizam para procurar formas e processos alternativos de organização e a matriz da nova museologia para verificar se este campo de conhecimento e de prática social se mostra adequado à mobilização das heranças como instrumentos de mudança social.

Esta museologia social que falamos, que se constitui em Lisboa, em 1985 em torno do Movimento Internacional para uma Nova Museologia (MINOM), está ancorada no legado do movimento construtivista que onde a ação do individuo no grupo é vista como o resultado da sua interação com os outros. Este diálogo entre o individuo e o grupo é a raiz da função social da museologia. Assim esta nova museologia, ao invés de se centrar no objeto patrimonial, centra-se na relação que os objetos patrimoniais permitem criar entre os indivíduos. Aquilo que o património permite criar como campo de diálogo entre os membros da comunidade e com os territórios.

Essas preocupações, que na museologia emergem com motivação para a ação, no texto que a Nova Museologia considera a sua declaração iniciática –a “Declaração de Santiago”, feita em 1972, na cidade capital do Chile. Esta declaração, feita no contexto dos intensos movimentos sociais da América do Sul na época, vinha, entre outras questões não menos relevantes, chamar a atenção para a necessidade dos museus estarem ao serviço do desenvolvimento da comunidade e dos territórios.

Introduz igualmente no vocabulário da museologia as questões do ambiente através do conceito do ecomuseu e do museu integral, uma preocupação que então estava na ordem do dia, quer na Europa por via dos movimentos ambientalistas, e que nas Américas emergia por via dos sistemas de propriedade e exploração do solo. Os efeitos desta declaração vão influenciar profundamente o movimento museológico na América e na Europa, e está na origem do desenvolvimento dos novos tipos de museus de comunidade, de consciência, de território.

Passados doze anos, em 1984 no Quebec no Canadá uma segunda declaração, que ficará conhecida como “Declaração do Quebec”, irá marcar este movimento da nova museologia, introduzindo a questão da necessidade de envolver as comunidades e mobilizar a sua participação nos processos museológicos. Essa reflexão chega por via do intenso debate de vários museólogos de todo o mundo sobre experiencias em ecomuseus. É a partir da consciência da necessidade de incorporar a participação da comunidade nos processos museológicos que determinará a vontade dos museólogos de se constituírem como um grupo dentro do ICOM. Esse grupo dera formalizado no ano seguinte, em Portugal, constituindo o MINOM.

O Terceiro momento de relevância para as nossas questões regista-se em 1992 através da “Declaração de Caracas”, onde se chama a atenção para a necessidade dos processos museológicos integrarem, debaterem e trabalharem as questões da globalização. Ao mesmo tempo emerge a consciência de que os museus são simultaneamente espaços de comunicação e de preservação, introduzindo uma dualidade na prática museológica. A nova museologia, que se continua a desenvolver com importantes contributos, será doravante marcada por esta tensão entre a salvaguarda das heranças e a sua comunicação, isto é do seu uso como instrumento de educação e de construção de inovação social (Bruno, 1996). É através dessa consciência que se vai formar a proposta de formação da cadeia operatórias da museologia, onde a questão e as problemáticas da conservação são colocadas em paralelo com a sua devolução à comunidade como processo de comunicação.

A partir dessa conceção da museologia como instrumento de construção da relação dos objetos mnemónicos com as comunidades e com os territórios, a operação museológica deixa de ser uma operação executada exclusivamente por peritos, para ser efetuadas de forma participada pelas comunidades. Trata-se duma operação que nos obriga a interrogar sobre o que se escolhe para preservar, que nos leva a questionar sobre quem seleciona, como se preserva e para que se preserva; ao mesmo tempo que, estando o processo museológico ao serviço da sociedade, nos obriga a interrogar sobre o que se comunica, como se comunica, para quem comunicamos e para quê o que comunicamos.

Finalmente, chegamos a uma nova declaração, a “Declaração do Rio” aprovada no XVI encontro Internacional do MINOM, em 2013, que defende uma Nova museologia com base nos afetos, na formação de narrativas construídas pelos protagonistas, nos museus como processos políticos, poéticos e pedagógico que sejam simultaneamente protagonistas e cenários de construção de memórias e de sonhos que levam a reconstrução da realidade.

Esta nova museologia ao mesmo tempo que inclui na museologia novos objetos, novos protagonistas e se dissemina por vários espaços sociais em relação com outros processos, transforma-se num serviço prestado à comunidade. Tal como surgem novos tipos de museus, tais como ecomuseus, museus de território, museus de comunidade, museus de identidade, museus de consciência, museus sem objetos ou as redes de museus; surgem novos objetos, tais como as narrativas biográficas, os patrimónios imateriais, ou objetos construídos no processo de conhecimento/fruição; e surgem novos processos museológicos, sejam espaço de cultura ou configurações onde os processos museológicos se entrelaçam com outros processos sociais, no campo da saúde, da educação dos serviços, etc.

Estamos perante um movimento que tem vindo a procurar a adequar as suas práticas à mudança social, procurando ajustar as suas práticas e formas organizacionais aos movimentos socais. Como verificamos acima, os processos desta nova museologia social tem vindo a procurar relacionar os problemas locais com os problemas globais, atuam através de processos democráticos, inserindo-se e facilitando as criação de conexões nas comunidades, contribuem para a emancipação social através da criação de espaços e processos de encontro.

Se esse movimento de renovação da museologia se mostra adequado aos modernos processos desenvolvidos pelos movimentos socais, interroguemos agora a realidade portuguesa em busca desses sinais.