Que nova museologia para a inovação social

Concluindo esta nossa reflexão sobre os movimentos sociais e a nova museologia em Portugal, verificamos que ainda um caminho a percorrer para o movimento da museologia social se sintonizar com os movimentos sociais. Identificamos mais acima que há um novo tipo de movimento social, um movimento que não tem na sua génese grandes ideais de orientação política, mas que corporizam, apesar de tudo ideias de justiça, de igualdade, de paz, de preocupação sobre o estado do mundo. Se por um lado não apresentam grandes reivindicações, traduzem uma grande parte das preocupações locais.

Também verificamos que estes movimentos de caracterizam pela sua horizontalidade, por transportarem agendas abertas e procurarem a inovação a dimensão participativa tem-se vindo a afirmar como modo de ação política. Na dimensão participativa sente-se que estão a emergir novas formas de prática democrática. Demos o exemplo da democracia dialógica, onde se procura uma conciliação entre os fins e os meios. Um processo participativo que se tem vindo a afirmar como um princípio de regulação política. A democracia dialógica procura ultrapassar alguns bloqueios que a democracia participativa já tinha revelado, incrementando os processos de democracia direta e ação direta, em detrimento dos processos de representação que caracterizaram as instituições políticas da modernidade.

Os movimentos sociais na história não foram movimentos políticos. São movimentos que podem ter implicações políticas, nas organizações políticas. A mudança social é um processo de mudança cultural. É através da exploração de novas formas de intervenção na sociedade que se produz mudança cultural. A alteração das relações de exercício do poder social que os movimentos sociais estão a produzir, está a obrigar a uma alteração das relações dos políticos e do sistema político com a sociedade. A transição da sociedade industrial para a sociedade em rede, da sociedade de comunicação, não pode ser feita com as mesmas instituições de poder. Estas instituições são duma sociedade que já não existe. A instituição política que herdamos da sociedade industrial está bloqueada. Está incapaz de resolver os problemas sociais e procura, através do enfrentamento com os movimentos sociais, impedir essa alteração.

Por isso que a organização desta nova museologia, quer as suas práticas necessitam de se ajustar aos ritmos da mudança e sobretudo necessita de se transformar em espaço de partilha e de construção de experiências. A museologia social, como verificamos é um campo de experimentação para este novo tipo de movimentos social. Como sabemos as questões da mudança e da tradição, entre o local e o global permanecem como uma das problemáticas na teoria social e uma questão central no campo dos estudos patrimoniais. Os processos museológicos ganham através dessa tensão relevância para o trabalho sobre a inovação social.

A questão da inovação Social é uma problemática emergente no campo da museologia. A questão das comunidades viverem num tempo de mudança acentuada a associada à presença dominante de um modelo tecnológico com empresarial (com um regulação pelo mercado), exige que a organização social encontre uma resposta para além desse mercado.

Se a abordagem do social, pelo campo das ciências sociais, tem sido marcado por uma certa análise dos olhares sobre a inclusão das comunidades, e na criação de capacidades nas populações marginalizadas e excluídas dos processos hegemónicos; as novas abordagens da teoria social procuram centrar-se nos processos de mudança social, construída pelos próprios atores sociais, a partir da mobilização dos seus sabres.

A inovação social, como problemática da museologia passara então a centrar-se na mobilização dos objetos patrimoniais para a satisfação das necessidades humanas, com base na pessoa na sua dimensão física e afetiva, na inclusão e na participação de todos nos processos e na capacitação social dos sujeitos (do eu para o todo). A museologia assume-se como um processos de busca de relações de poder, procurando colocar os atores sociais em diálogo e criar compromissos de ação.

A museologia dos movimentos sociais procura criar narrativas inclusivas e evitar a narrativas exclusivas. É uma museologia que procura criar evocações (capacidade de comunicar) no espaço e colocar os atores face a face para procurar a dimensão humana e o encanto. A inovação social dispõe duma dimensão política de emancipação social. Por isso dispõe dum potencial de transformação que importa entender. É necessário entender em que contexto se gera a inovação social e em que contexto se realiza.

O movimento da nova museologia tem-se mostrado atendo à questão da inovação social. Contudo, em Portugal, o movimento desta nova museologia, apesar do seu contributo teórico tem-se mostrado, nestes últimos anos, aprisionado do seu sucesso no passado. Tem-se constituído como um movimento que não tem tido a capacidade de inovar nas suas práticas coletivas, ao mesmo tempo que os processos que dinamiza, na maioria dos casos resultam de experiências académicas. Experiencias muito pouco enraizadas numa proximidade com os movimentos sociais. Tem-se desenvolvido uma museologia celebratória, que mobiliza de forma insuficiente os principais atores sociais.

O Caso Português da museologia social pode ser abordado como um caso de estudo. Foi um modelo que partindo dum princípio teórico de desenvolvimento da participação das comunidades para ativar os recursos patrimoniais como recurso para o desenvolvimento dos territórios, se confrontou com fortes políticas públicas, onde o Estado (nacional e comunitário) atua como financiador das diferentes redes. Este domínio dos processos de financiamento acabou por condicionar os diferentes processos, na medida em que obriga à conformação das ações como modelos preestabelecidos no quadro das organizações do próprio estado.

Há no entanto um grande potencial a explorar na ligação dos processos da museologia social aos movimentos sociais. A questão do empreendedorismo social, tem-se vindo a mostrar como um instrumento adequado a geração e formas de economia popular e solidária. Os processos museológicos podem constituir-se como incubadoras sociais, como alguns equipamentos já mostram, como espaços experimentais da aplicação de novas tecnologias, de novas prática sociais de participação e decisão.

As práticas sociais e os discursos dominantes tendem a privilegiar o empreendedorismo individual em detrimento do empreendedorismo social. A museologia social apresenta na sua matriz as condições necessárias para reinventar a emancipação social em Portugal. Sabemos que o papel do terceiro setor, o setor social está a ser profundamente reequacionado na crise económica e social atual. A museologia tem um papel a desenvolver no uso das memórias da comunidade. A questão desta nova museologia social é agora como mobilizar as pessoas para trabalhar na comunidade. É necessário ter confiança nas pessoas e nos processos para criar redes colaborativas.

A museologia social em Portugal, apesar das suas contradições e condicionantes que mais acima identificamos, apresenta o vigor necessário para se envolver em processos de inovação social.  Para isso necessita de resolver algumas questões sobre as suas práticas. De forma a desenvolver os processos participativos de forma plenas, do planeamento à decisão da ação, dos mecanismos de avaliação aos processos de revisão de prioridades. Os processos museológicos desta nova museologia devem procurar trabalhar nas esquinas do mundo, olhando as trocas culturais por causas duma economia social. Uma economia onde a troca é uma alternativa ao consumo, uma economia que parte dos recursos locais, que os reutiliza, recicla, e evita o espírito do consumo para se centrar no Encontro.

A museologia social que se tem vindo a afirmar hoje em Portugal necessita de assentar em redes colaborativas, gerar produtos colaborativos e promover a inserção social através de projetos colaborativos. A missão de MINOM em Portugal, passa em boa medida por favorecer a emergência das dimensões participativas nos processos em que se envolve, construindo-a a partir da dimensão global das questões da dos patrimónios como espaço de encontro e espontaneidade.

A provocação que lançamos ao MINOM para este debate é o desafio de abandonara a miséria duma museologia celebratória para se assumir como um movimento duma museologia de afetos envolvida nos processos de emancipação social.