A crise mundial de 2008 e os novos movimentos sociais 

Em 2008, na sequência da intensa crise financeira, criada pela especulação e pela ganância dos especuladores mundiais, a Europa e na América, assistimos a um recrudescimento dos movimentos sociais. Mas agora, surpreendentemente, este movimentos alargam-se a áreas do globo e inovam nos métodos usados, questões que tem vindo a ser salientadas por diversos observadores da realidade social.

No norte de África, na sequencia do problema do desemprego e da autocracia, gera-se uma onde que alastra rapidamente por toda a bacia do mediterrâneo. Na América do Sul, com o crescimento da procura das matérias-primas no mercado mundial, surgem movimentos a reivindicar uma melhor distribuição da renda, uma melhor distribuição dos recursos e uma maior atenção a transparência das decisões dos governos. Movimentos que ficam conhecidos com a “Primavera Árabe”, os “Indignados” os “Occupy Wall Street”. Movimentos sem dúvida muito heterogéneos, de fins diferentes, mas com uma ação muito mais extensa e persistente do que aquela que as agências noticiosas acabam por dar.

O que é que há de comum nestes movimentos sociais, qual é o seu perfil e de que forma é que eles contribuem para a mudança social? Algumas breve linhas sobre esta questão antes de analisarmos as formas como a museologia social responde a este movimento.

Todos temos a perceção que as sociedades submetidas a intensos processos de globalização apresentam-se como conjuntos sociais afetados por intensos processos de transformação. O tempo social acelera-se e o espaço social fragmenta-se.

Como em toda a organização social, o processo da sua transformação pode ser observado a partir dos movimentos sociais. É neles que encontramos os elementos de inovação social, de organização e de práticas que estão a emergir. Como sabemos pela teoria social, as formas de poder político tendem a conservar as formas de organização hegemónica, enquanto nas formas de contestação desse padrão de organização social, que em grande parte é protagonizada pelos movimentos sociais, encontramos a procura da inovação social que permite outra organização dos poderes e práticas sociais. É através da análise dos movimentos sociais de contestação que podemos aceder e procurar as evidências que permitem entender as tensões que estão presentes na sociedade. È neles que procuramos entender os ritmos da mudança social.

Como afirma Manuel Castells no seu livro sobre as sociedades da informação (Castells, 2002) os padrões da mudança social não se geraram no campo das organizações políticas atuais, mas sim no campo das ações de rua, protagonizadas pelos movimentos sociais. São os movimentos sociais que estão a pressionar a organização social a introduzir ajustamento e alterações nas suas formas de organização política. Segundo Castells, se procurarmos os motivos que levam os indivíduos a agrupar-se em determinados contextos e em determinadas circunstâncias, para desenvolver uma ação social e pressionar as formas e processos de organização social, estamos a analisar os processos de transformação social.

Segundo Castells, na obra citada, o processo de mudança gera-se a partir duma emoção individual, face a determinas circunstâncias, por ação de um elemento catalisador e que se verifica ser socialmente partilhada por membros dum grupo. Castells identifica a produção da raiva, como esse elemento catalisador, que quando é socialmente partilhada desencadeia o potencial da revolta. A raiva, é uma das emoções básicas do ser humano. Ela é uma das condições necessária para se gerar a revolta, no indivíduo. É essa raiva, quando socialmente partilhada pelo conjunto dos indivíduos num determinado momento e face a uma determinada situação, entendida ou percebida como injusta, como ameaça ou como erro que se torna uma condição base do movimento social.

A raiva é uma emoção básica, geralmente conotada como uma emoção negativa, na medida é que se relaciona com a agressividade, a violência, a ira e a hostilidade. Trata-se duma emoção de defesa do sujeito que desencadeia atitudes de agressão física ou verbal. O ser humano organiza-se seguindo padrões de organização (regras). Esta capacidade de construção de regras, implica a capacidade de as formular e a de aferir a sua utilidade. Nesse sentido, a raiva, para além da emoção também transporta a capacidade de simbolização (abstração) do mundo, transportando a possibilidade correção de comportamentos, de avaliar os erros e de construção da adequação necessária.

No entanto, com afirma Castells, não basta a raiva, mesmo que partilhada por um número significativo de membros, para se gerar a revolta. É necessário acrescentar ainda o medo, uma outra emoção básica, para que se gere revolta social. O medo resulta duma situação coerciva. O medo eclode perante uma perceção de perigo para o indivíduo e para o grupo, produzindo comportamentos de proteção, individuais e de grupo. O medo é uma emoção que desencadeia sempre uma ação.

No caso dos grupos humanos, o poder social organiza a forma da sociedade, legitimando os processos de ação social, fornecendo as estruturas socais de concretização da ação e disponibilizando as respetivas narrativas de legitimação simbólica. Ora em certas circunstâncias, quando a perceção de que essa organização social não está a responder adequadamente às necessidades dos membros do grupo, perante a perceção de bloqueamento e os impasses do enfrentamento, a raiva pode emergir.

A raiva perante situação conduz ao enfrentamento das estruturas de legitimação social e impelem para o movimento de revolta, através do qual se ultrapassa o medo. O movimento social é uma ação de revolta contra uma situação injusta cuja perceção de resolução surge bloqueada, gerando-se essa frustração que se transforma é raiva, desencadeado a fúria. Quando essa situação se sintoniza num conjunto alargado de membros, a união de todos é o mecanismo de superação do medo e da raiva, libertando o potencial criador da ação social.

Segundo essa perspetiva, podemos concluir que o processo de mobilização do grupo para uma ação é uma forma de ultrapassar o medo. Trata-se dum processo onde o individuo se insere no movimento do grupo, por via da sua revolta, depositando nesse movimento a esperança da resolução dos conflitos em que se sente envolvido.

O que procuramos relevar nesta análise, é que, como diz Castells, todo o processo social é simultaneamente um processo de interação comunicativa. Através da análise dos processos de comunicação entre os membros do grupo e entre estes e o exterior, poderíamos identificar os principais vetores dos processos de mudança social. A questão da análise dos processos de comunicação entre os membros do grupo torna-se crucial para analisar a capacidade de mobilização do grupo, a sua capacidade de processar e partilhar essa comunicação. A manutenção de fluxos de comunicação constantes é uma parte do processo de manutenção da ação e da superação do individual pelo movimento de conjunto.

Ora a analise dos processos de comunicação entre os movimentos sociais nestes últimos anos permitem comprovar esse paradigma da teoria social. A produção de inovação social por estes movimentos é muito intensa, diversificada e enuncia importantes transformações. A capacidade de comunicação e a plataforma tecnológica evolui muito aceleradamente, permite a estes movimentos sociais a geração de comunicação em tempo real. O movimento social hoje liga-se em tempo real, gerindo em tempo real uma multiplicidade de interações comunicacionais, obrigando à prática de novos processos de decisão sobre a ação. O global e o local estão conectados. Gera-se uma conexão instantânea entre qualquer pessoa em qualquer local. Cada indivíduo comunica instantaneamente com outros, em qualquer escala.