O tempo e o espaço dos movimentos sociais 

Ao invés do passado, onde o acumular das tensões, do medo e da raiva levava ao um lento aquecimento que culminava numa revolta social generalizada e profunda; hoje toda a tensão pode eclodir e manifestar-se por contágio em qualquer lugar, em manifestação que podem ser mais ou menos intensas, mais ou menos duráveis. O que há de novo nestas manifestações, é que elas, em muitos casos, ocorrem fora ou na margem dos poderes globais. Poderes que embora possam controlar alguns canais, raramente podem impedir uma difusão instantânea que funcionam como catalisadores da ação. Um processo de comunicação, quando gerado, não pode ser controlado.

Este foi um dos métodos usados pelos movimentos sociais. A utilização da rede de comunicação global que permitiu o acompanhamento instantâneo em qualquer lugar, através de múltiplos canais rizomático.

Estes movimentos sociais tiveram por base a indignação. Indignação que gera a revolta por se ter entendido que a ação dos estados privilegiou as organizações financeiras em detrimentos dos indivíduos. Foram intervenções dos Estados que incrementaram a concentração da riqueza e a socialização dos prejuízos. O movimento desencadeia e canaliza a indignação das pessoas contra os Estados. Essa indignação contra o Estado, foi o que catalisou e canalizou a revolta social.

Mas se estes movimentos sociais nascem na rede social da Internet, que é um espaço de troca de informação protegido isto é, não passível de ser censurado no momento e onde através de num único impulso se contagiam múltiplos pontos que em cadeia desencadeiam ondas de expansão, a relações sociais, todavia, acontecem em situação.

Não bastará apenas a raiva a o medo para gerar, através das novas tecnologias, um movimento social. É também necessário, que em contexto, as redes de proximidade funcionem. Não há movimento social com indivíduos isolados, mas sim com conjunto de indivíduos a agirem em conjunto. Para que estas conexões sociais de proximidade se mobilizem e se contagiem é necessário que elas preexistam. Para que haja movimento social é necessário que existam espaços e tempos de sociabilidade. Antes, durante e depois.

Estes novos movimentos sociais, embora se concretizem em espaços e tempo locais, a partir de problemas locais, mobilizam, como manifestos, ideias globais. O que se pede na praça pública é democracia, igualdade, liberdade, justiça, quase sempre contra as situações geradas pela limitação dos poderes políticos. Há portanto um potencial de criação de inovação, quer em novas relações sociais, quer em novas práticas sociais.

Se o que acontecia no passado, onde o tempo de construção dos fenómenos locais em fenómenos globais era lento, esse tempo, nestes novos movimentos sociais tornou-se agora num tempo instantâneo. Ao mesmo tempo a que mobiliza a comunidade local em trono dos problemas pressentidos localmente é a perceção da sua dimensão universal. E essa é também uma nova dimensão destes movimentos. A sua capacidade de localmente protagonizarem movimentos globais.

Os problemas ecológicos, os problemas das mulheres são problemas hoje globais, mas vividos localmente. Quando ocorre uma violação dos direitos humanos num local, eles podem ser instantaneamente ampliados pelas redes de comunicação. Esse eco, por sua vez, amplia a eficácia da ação local, pelo fluxo crescente de interesse sobre o fenómeno.